Flanando… Capítulo 3 (final): Duas faces da mesma Ouvidor

No capítulo final, queremos mostar os contrastes que podem ser percebidos na Rua do Ouvidor. O Rio de Janeiro é, por excelência, desde sua fundação, uma terra de antíteses, uma cidade partida, muitos lugares em um.

Dizem que toda rua tem um começo, mas só a Ouvidor tem dois.

 Texto e fotos por Pedro Paulo Bastos, de As Ruas do Rio

A Ouvidor com a Mercado poderia se passar tranquilamente por cenário de filmes e/ou novelas de época não fossem os automóveis nada antigos por ali estacionados – mal, diga-se de passagem –, obstruindo o cruzamento, justamente nos trechos dessas ruas que não dão acesso ao trânsito de veículos. Os automóveis ali parados contrastam com a tranquilidade histórica remetida pelos belos sobrados da região. E o melhor: sobrados restaurados, devidamente pintados, sem aquela cara de imóvel caquético caindo aos pedaços. Eles têm vida, não só pela bela arquitetura realçada pelo toque de manutenção, mas também pelo significado que hoje possuem naquele espaço urbano.

 A maioria dos sobrados daquela área se dedica às atividades comerciais, mais especificamente ao comércio dos comes & bebes. Local estratégico, pois é justamente nesta região do Centro que estão os maiores escritórios do ramo financeiro (a Bolsa do Rio fica a poucos metros dali) e é para esse festival gastronômico que os trabalhadores partem na hora do almoço ou após o expediente – happy hour mais carioca que esta não há. Quando falo trabalhadores, não me refiro a qualquer tipo de trabalhador, mas àqueles que, na sua grande maioria, são executivos, trajados em terno, gravata, sapato, que só não andam mais impecáveis porque esse calorzão do Rio não permite. Por outro lado, as mulheres também não cometem deslizes: terninhos, saltos altos e óculos – escuros, é lógico. A esquina Ouvidor com a Rua do Mercado atinge um público-alvo baseado na classe média para cima, refletido não só pelo comércio (como o restaurante árabe Al Khayam e a livraria Folha Seca, ali pertinho também) mas pela boa limpeza local, como um todo.

O cuidado dado às calçadas e aos paralelepípedos também são dignos de uma área melhor preservada, e isso não é exatamente graças à boa vontade do povo, mas sim à dos planejadores…

Adentrei à Rua do Ouvidor, passando pela Travessa do Comércio, esperei pelo menos uns dois minutos até o sinal da Primeiro de Março fechar para os pedestres, senti o forte ar-condicionado da Saraiva Mega Store do lado de fora, não resisti e entrei um pouco, saí novamente, esperei mais um pouco até poder cruzar a Rio Branco, tropecei em uma pedra na esquina com a Rua Uruguaiana, e lá avistei, ao fundo, o prédio do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ e, finalmente, o término da Rua do Ouvidor: eu estava já na outra extremidade. Reativando meus seis sentidos à análise, pude constatar uma diferença sonora bastante diferente daquela que existia no cruzamento com a Rua do Mercado. O.k., falar de freadas e buzinadas de ônibus não seria o mais aceitável, afinal, ambas as áreas do Centro convivem com tal tipo de ruído; o barulho ali é humano. Poluição sonora que, dependendo do seu estado de humor, pode ser um prato cheio para a diversão – ou então, sinônimo de estresse.

“Cerveja, água, Skol, aqui comigo! É 2 reais!”, grita um ambulante. “Antena parabólica aqui na mão do camelô. Você vai ver os canais da TV a cabo diretamente dessa antena especial! Alô freguês, chega mais”, berrava outro, em competição, desta vez em um auto-falante.

E é mate pra cá, R$ 1,99 pra lá, piratarias adiante… Assim a Rua do Ouvidor termina, como se fosse uma espécie de camelódromo ambulante, já preparado sagazmente para qualquer tipo de aparição policial ou fiscalizadora. Mesmo sofrendo todos os riscos possíveis, os camelôs sorriem, dão gargalhadas, fazem piadas – parece que nada abala o bom humor do carioca. Nem mesmo o calor quase desumano do Centro da cidade. E os pedestres circulam em meio a esse muvuca, pedestres esses bem mais despojados que os que circulam pela região da Rua do Mercado; vestem bermudas, regatas, vestidinhos, sandálias rasteiras, Havaianas, refletindo bem o clima informal deste trecho da Rua do Ouvidor.

 O comércio legalizado também atende à clientela mais popular: lojas de calçados e tecidos recheados de promoção, os famosos “Chinas” com a dobradinha “joelho mais refresco” por R$ 1,99, além de outros, tudo isso em meio a uma arquitetura também imponente, mas não tão conservada e valorizada como a dos arredores da Rua do Mercado. Entretanto, em meio ao caos, é impossível passar por ali e não achar graça em algo; mesmo com todas as adversidades, o carioca sabe se divertir com os pequenos detalhes do dia-a-dia.

Dali eu saí com a cabeça a mil, com ideias e mais ideias sobre o que escrever, revendo as fotos registradas na máquina, e com um outro tipo de sentimento que nos foge, amiúde – o sentimento de íntima satisfação, de orgulho pelas minhas raízes. Ser natural de uma cidade que mistura, em um pequeno espaço territorial, diferentes funções, perfis sociais, aparências, e história, muita história. Isso simboliza mais riqueza que muitas contas bancárias por aí afora…

O Rio na Veia agradece o blog As Ruas do Rio e o Pedro Paulo por essa caminhada pela rua do Ouvidor, esperando reeditar a tabelinha em breve. Aos demais cariocas, fica a ideia de contarmos juntos outras histórias. O Rio na Veia está aqui pra isso.

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