Nelson, Engraxate

Você voa para a o planeta Terra, dá uma guinada para o Brasil, aponta para o Rio de Janeiro e pousa bem no centro da cidade. Só tem que ligar uns minutinhos antes para o celular do papai que ele vai estar lá te esperando quando você chegar…

Meu filho quer ser astronauta. Mas vive me perguntando como é que vai ser quando sentir saudades do pai.

Meu nome é Nelson. Eu sou engraxate. E onde eu trabalho, vejo outros astronautas que se tornaram advogados, filhos que viraram pais e pais que não tiveram filhos. Políticos e administradores, economistas e contadores; os poetas… poetas, que antes de escreverem as belezas de seus versos, me pedem graxa para que seus sapatos possam lhes refletir a luz da realidade.

Caso recente é o caso do Sérgio, que não é poeta, mas é músico. Ele vem, no fim da tarde, à engraxataria para dar um lustre nos sapatos. Diz que é importante para todo bom sambista que, em dia de show, os sapatos estejam brilhando. Como o Sérgio toca bandolim, quase todos os dias, nos bares da Lapa, é facilmente compreensível entender por que nos vemos com tanta freqüência.

 Os sapatos nos dizem muito sobre a pessoa, seu Nelson. Certa vez, num dos sambas que costumava promover ali no Carioca da Gema, vi uma moça dançar a noite inteira com um único cavalheiro. Até aí, nada demais, você vai me dizer. E não há nada demais nisso mesmo. O que me chamou a atenção, Nelson, é que ela tinha uma aliança no dedo anelar da mão esquerda e o cavalheiro com quem ela dançava, não a tinha. Estou acostumado a ver mulheres dançando com homens em gafieiras, pagodes e rodas de samba, sem isso significar absolutamente nada. O que os une não precisa ser nenhuma outra coisa que não a paixão pela música, ou o gosto pela dança.

– Ela estava de aliança no dedo, seu Nelson, em todas as noites que a vi. E vou lhe contar que na última noite em que me apresentava na casa, durante um intervalo, ao avistar a moça sozinha no bar, fui falar com ela.

– Senhora, me desculpe a franqueza e a intromissão, mas tenho estado curioso ao seu respeito. Você me chama a atenção. Dança como poucas, devo dizer; diverte-se com muitos. Você é comprometida, e isso posso ver pela aliança que tem no dedo. O que explica a ausência de teu marido no recinto? Não gosta de samba? Esgota-se no trabalho? Abomina a vida noturna?

Desconcertada com a pergunta, a moça reforçou, junto ao garçom, o pedido que tinha feito. Já com a cerveja na mão, me disse:

– Sabe, senhor…?

– Sérgio. – lhe respondi

– Senhor Sérgio, tem sempre essa quantidade de brilho nos pés?

– O bom sambista se mostra pelos pés, senhora…?

– Carmem. – respondeu

– Carmem. – completei.

– Senhor Sérgio, peço licença ao senhor em não lhe responder a pergunta que me fez. Você não entenderia nada do que viesse a lhe explicar. Não é só o bom sambista que se mostra pelos pés.

– Sabe, seu Nelson, confesso que realmente não entendi aquela situação.

– Ah, seu Sérgio. Eu digo a você. Essas moças da Lapa… Olha, me lembre de, na próxima vez, reforçar o brilho.

Nelson é dono de uma engraxataria no Centro do Rio e, pelo estado da sola dos sapatos que escova e dá brilho, é capaz de desvendar a personalidade de seus clientes. Pouco se enganou a esse respeito nos últimos 30 anos.

Anúncios

Uma resposta para “Nelson, Engraxate

  1. Curti o Nelson! Que venham mais casos!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s