Rio Gentil

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É quase tudo verdade.

Maria de Lourdes, ascensorista do edifício garagem, deseja bom dia mais de 1253 vezes por manhã. O hábito se disseminou e muita gente costuma desejar bom dia nos elevadores do edifício garagem.

Na rampa de entrada do estacionamento, a recepcionista Solange repetia pelo menos 727 vezes ao dia a reverência que convidava os motoristas a parar na área VIP. O mis-en-scene sensual, que lembra vagamente uma dança egípcia, quase dobrou o número de motoristas que utilizam o estacionamento VIP. Um deles se apaixonou por Solange e parece que decidiram se casar, porque não há mais danças convidativas no andar VIP. 

Na rua de pedestres quase em frente, outro ritual tem seu curso. O vendedor de livros Jailton caminha abaixo das 622 janelas de escritórios do Edifício Sul Americano, quando um grito o faz parar: Camarão! E logo dezenas de pessoas se aglomeram nas janelas: Eiiii Camarão!!! Aêêê Camarão!!!! A gritaria dura alguns segundos e depois o vendedor segue seu caminho.

Na penúltima eleição, Jailton se candidatou a vereador. O tempo na TV era curto, então ele resumia sua plataforma política em uma frase, vermelho até as orelhas: Camarão é a mãe!!! Recebeu 637 votos.

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Na hora do almoço, Jailton, Solange e populares em geral se aglomeram para assistir a um show de ilusionismo na calçada. Davi Coperfil, mágico e camelô, ensina o truque para quem comprar uma de suas mágicas. A mais barata custa cinco reais e faz moedas sumirem dentro de um copo com água. Ele já vendeu 68 truques em um dia de sol. Entre seus clientes há crianças, aposentados, empresários engravatados e até um Promotor.

José Datrino, bem sucedido empresário de transportes, não tinha tempo para números de mágica nem conhecia o Gran Circus Norte-Americano, que deixara o Rio para uma temporada em Niterói. Mas quando a lona se incendiou e mais de 500 pessoas morreram na véspera do natal de 1961, José Datrino sentiu uma compulsão irresistível de ajudar os sobreviventes.
 
Datrino encheu seus caminhões com mantimentos e foi ao local oferecer conforto às famílias, que ele não conhecia. No lugar das cinzas, ele plantou um jardim e uma horta. Desde então, José Datrino ficou conhecido como José Agradecido e se tornou um pregador das ruas.

Ele ensinava que em lugar de ”muito obrigado”, devemos dizer ”agradecido”, e ao invés de ”por favor”, devemos usar ”por gentileza”, porque ninguém é obrigado a nada e devemos ser gentis uns com os outros por amor, não por favor.

José Agradecido deixou sua obra no livro de concreto urbano, pintado nas 56 pilastras do viaduto do Caju, com a mensagem em verde e amarelo. Gentileza gera gentileza. Agradecido, profeta.

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Uma resposta para “Rio Gentil

  1. Fantástico o texto. Sempre me emociono com a história do Gentileza…..

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